A Inteligência Artificial está mudando a forma como as pessoas tomam decisões, as empresas fazem negócios e a indústria organiza suas operações. Esse cenário esteve no centro dos debates da 3ª Semana de Inovação do Instituto Atlântico, encerrada na quinta-feira (15), no Hotel Sonata de Iracema, em Fortaleza. O evento reuniu especialistas, representantes da academia, indústrias, startups, estudantes e parceiros para discutir os avanços da tecnologia e as perspectivas para os próximos anos.
Um dos destaques da programação foi a palestra de encerramento de Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e LinkedIn Top Voice, sobre o tema “Inteligência Artificial e o futuro dos negócios de tecnologia”. Para o pesquisador, a IA tem potencial para provocar transformações ainda mais amplas do que as observadas em revoluções tecnológicas anteriores, com efeitos que vão além da economia e alcançam dimensões cognitivas, culturais e afetivas.
“Desde a Revolução Industrial, a humanidade experimenta grandes saltos tecnológicos. Mas a IA tem o potencial de ser ainda mais transformadora, porque atua em diferentes dimensões”, afirmou Cortiz, ao destacar a dificuldade de prever até onde a tecnologia poderá chegar e como seus efeitos se manifestarão no futuro.
IA pode mudar o comportamento dos consumidores
Além dos impactos sobre os negócios, Cortiz chamou a atenção para o volume de investimentos destinados ao desenvolvimento de modelos e agentes de Inteligência Artificial. Segundo ele, a combinação entre recursos financeiros e mudanças no comportamento dos consumidores pode alterar profundamente a economia digital.
O professor também citou pesquisas que, segundo sua apresentação, indicam que uma em cada duas pessoas confia mais na Inteligência Artificial para tomar decisões de compra do que nas informações encontradas nas redes sociais ou recebidas de amigos e familiares.
A mudança representa um desafio para empresas que dependem de estratégias tradicionais de marketing, publicidade e relacionamento com clientes. À medida que ferramentas de IA passam a participar da busca por produtos, da comparação de preços e da escolha de serviços, as organizações precisam rever a forma como apresentam suas marcas e se conectam com o público.
Cortiz também participou do painel “Tendências de Inteligência Artificial para 2027”, ao lado de Joel Rodrigues, professor da Fecomércio-CE, e Luiz Alves, diretor de Inovação e Novos Negócios do Instituto Atlântico.
Governança será decisiva para aproveitar o potencial da IA
Para Luiz Alves, a expansão da Inteligência Artificial exige que empresas e sociedade compreendam tanto as oportunidades quanto os riscos associados à tecnologia.
“Pela primeira vez, nesta geração, estamos de posse de uma tecnologia que pode causar um bem gigantesco para a humanidade. Basta fazermos bom uso dela. Ao mesmo tempo, nas mãos erradas, ela pode prejudicar a sociedade”, afirmou o diretor.
Segundo Alves, ampliar o conhecimento sobre IA é essencial para que diferentes setores estejam preparados para utilizar a ferramenta de maneira responsável e identificar seus possíveis impactos.
A discussão sobre governança também ganhou espaço nos debates voltados à aplicação da tecnologia na indústria. No painel “Quando a Inteligência Artificial ganha corpo, a indústria entra em uma nova era”, realizado na terça-feira, especialistas analisaram os desafios de incorporar a IA às operações industriais.
Eduardo Brito, especialista de Inovação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), destacou que o objetivo das empresas deve ser integrar a Inteligência Artificial aos processos de trabalho, em vez de utilizá-la apenas como uma ferramenta isolada.
Para ele, a governança dos dados será um dos fatores determinantes para o sucesso dessa transformação. A maneira como as organizações coletam, administram e processam informações pode se tornar um diferencial competitivo na adoção de soluções baseadas em IA.
Projeto industrial utiliza IA para reduzir desperdícios
A aplicação prática da tecnologia também esteve entre os destaques da programação. No painel “Parcerias que transformam”, representantes de empresas discutiram iniciativas desenvolvidas em colaboração com o Instituto Atlântico e parceiros de inovação.
Entre os participantes estavam Domingos Salgado, gerente regional da ENGIE Brasil; Liana Silva, gerente de Programas de Inovação; Henrique Pereira, gestor de Inovação e Excelência Operacional da Aço Cearense; e Carlos Simões, gerente corporativo de Digitalização Industrial da M. Dias Branco.
Simões apresentou um projeto desenvolvido em parceria com o Instituto Atlântico, por meio da Embrapii, que utiliza sensores e inteligência artificial para reduzir o sobrepeso das embalagens em uma linha de produção da unidade de Maracanaú, no Ceará.
A operação produz cerca de quatro toneladas de biscoitos por hora. Nesse contexto, pequenas variações no peso dos pacotes podem representar perdas de matéria-prima e custos adicionais quando acumuladas ao longo da produção.
“Esperamos, com isso, maior controle de variabilidade, uma rastreabilidade ampliada, menos perdas e retrabalho e escalabilidade, porque poderemos ampliá-lo para outras unidades da empresa”, explicou Simões.
O projeto exemplifica como a inteligência artificial pode ser aplicada para resolver problemas operacionais específicos, melhorar o controle de qualidade e aumentar a eficiência produtiva.
Da experimentação à estratégia de negócios
Os debates da 3ª Semana de Inovação do Instituto Atlântico evidenciaram uma mudança na discussão sobre inteligência artificial. Além de explorar novas ferramentas, as empresas precisam avaliar como incorporar a tecnologia às suas estratégias, estabelecer mecanismos de governança e transformar dados em resultados concretos.
Na indústria, esse movimento envolve desde a redução de desperdícios até a melhoria da rastreabilidade e do controle dos processos. No ambiente digital, inclui mudanças na relação com os consumidores e na maneira como decisões de compra são tomadas.
Com a evolução dos modelos e agentes de IA, a capacidade de integrar a tecnologia às operações e utilizá-la de forma responsável tende a ganhar importância nas estratégias de inovação. O desafio para as organizações será acompanhar esse avanço sem perder de vista a segurança, a qualidade dos dados e os impactos econômicos e sociais da transformação.











