Uma pesquisa realizada pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE) revelou um cenário preocupante enfrentado por catadores e catadoras de materiais recicláveis em Iguatu, no Centro-Sul do Ceará. O estudo identificou graves riscos à saúde, a ausência de equipamentos de proteção e condições de trabalho precárias, o que reforça a vulnerabilidade social desses trabalhadores, que desempenham papel fundamental na cadeia da reciclagem.
A investigação foi coordenada pela professora Adriana Alves da Silva, do curso de Bacharelado em Serviço Social do campus Iguatu, com participação da bolsista Maria Tereza de Sousa Barros e das estudantes voluntárias Maria Eduarda Oliveira e Silva e Maria Simone Alves Santos. A pesquisa foi desenvolvida entre outubro de 2024 e agosto de 2025 e acompanhou a rotina de 30 catadores que atuam no lixão localizado no bairro Chapadinha.
Por meio de observações de campo, entrevistas e aplicação de questionários, os pesquisadores identificaram uma série de problemas que afetam diretamente a saúde dos trabalhadores. Entre os principais riscos estão acidentes causados por materiais perfurocortantes, contato frequente com substâncias tóxicas, doenças respiratórias, problemas intestinais, dores musculares e lesões na coluna decorrentes do esforço físico intenso.
Impactos à saúde
Além dos impactos à saúde, o levantamento também revelou situações de insegurança alimentar. Segundo os pesquisadores, alguns trabalhadores relataram ter consumido alimentos encontrados durante a coleta de resíduos. A falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) e de condições adequadas para o exercício da atividade agrava ainda mais o cenário.
Um dos participantes da pesquisa, identificado pelas iniciais RSC, destacou a fragilidade da situação enfrentada pelos catadores. “Se adoecer, morre, morre de fome, porque não tem outro jeito”, afirmou.
Apesar das dificuldades, o estudo ressalta a relevância social e ambiental da categoria. Dados apresentados pelos pesquisadores indicam que aproximadamente 90% dos materiais recicláveis destinados à indústria passam inicialmente pelas mãos dos catadores, evidenciando a contribuição desses profissionais para a redução de resíduos e a preservação dos recursos naturais.
Além da produção acadêmica, o projeto teve como objetivo promover a conscientização sobre educação ambiental, o descarte correto de resíduos e a valorização do trabalho dos catadores. A iniciativa também estimulou parcerias com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMA) e o Consórcio Regional de Resíduos do Alto Jaguaribe para fortalecer a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (ASCMARI) e desenvolver ações voltadas à inclusão social e à melhoria das condições de trabalho.
Livro
Como resultado adicional da pesquisa, foi lançado o livro Questão Ambiental, Serviço Social e Desafios Humanitários: Semeaduras desde o Ceará, publicado pela Editora IFCE. A obra reúne estudos sobre questões ambientais, lixões, mudanças climáticas e os desafios enfrentados pelos catadores de materiais reutilizáveis na região Centro-Sul do estado.
O estudo reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à proteção da saúde dos catadores, à valorização da atividade e à ampliação de iniciativas de gestão sustentável de resíduos sólidos no Ceará.
Imagem: IFCE/Divulgação











